GUIA
ARRAIAL DO CABO REGIÃO DOS LAGOS
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Arraial do Cabo esta situada em uma região privilegiada
pela natureza com seus 35 km de praias, excelente para banhos e para a
prática de esportes náuticos em geral. Recebeu o título de
"Paraíso do Atlântico", e é conhecida como a Capital do
Mergulho. O pesquisador e mergulhador francês Jacques Cousteau, ficou
em sua visita, maravilhado com as praias de Arraial do Cabo, de águas
azuis e cristalinas. Suas praias, lajes e ilhas são excelentes para
pesca, possuindo grande variedade de peixes, onde grande parte de sua
população vive e comercializa do pescado. A riqueza da fauna e flora
marinhas da região é explicada pelo fenômeno da "Ressurgência",
que consiste no afloramento das águas das correntes frias profundas
originárias do Pólo Sul, ricas em nutrientes que integram a cadeia
alimentar dos animais microscópicos, que por sua vez, alimentam
outros animais maiores. Arraial do Cabo tem uma estrutura de um grande
centro turístico, sem perder as características da vila de
pescadores, que compartilhada com a natureza, faz do município um cenário
espetacular, com um potencial turístico e uma geografia privilegiada.
O dia 6 de junho de 2004 se
transformou numa data memorável para a história de Arraial do Cabo,
quando na manhã sublime deste dia, o nome de sete de seus pescadores
foram imortalizados no Monumento
Nacional aos Mortos da II Guerra Mundial.
Deveras, foi
um marcante acontecimento, uma vez que ocorreu décadas depois do
monumento ter sido concluído em 24 de junho de 1960, para onde foram transladados os restos
mortais de nossos pracinhas e aviadores, vindos em urnas funerárias, do
Cemitério Militar Brasileiro de Pistóia(Itália).
No dia 6 de junho de 2004, o Monumento aos Mortos da II Guerra
Mundial erguido no Parque do Flamengo, estava radiante. Não era por
menos, pois em um trecho daquele monumento que cobre uma área de 6.850
metros quadrados, encontrava-se tomado por
uma gente emocionada. Quando ali cheguei apressado, junto com
meus colegas do curso de História da Veiga, já podia avistar o povo de
Arraial do Cabo, reunido na plataforma, esperando o momento em que seus
parentes seriam eternizados. Fui logo de encontro aquela gente e no meio
dela, com a minha filha no colo, a Emilly,
contemplava de um lado, a escultura
de Alfredo Ceschiatti(representando irmanados, soldados das três
Forças Armadas) e do outro, o pórtico de 31 metros de altura, constituído
por dois “pilones”, em cuja base se encontra o túmulo do soldado
desconhecido e lá em
baixo, observava a cerimônia da troca da guarda que fluía de forma
cadenciada e solene. Lembrei que em algum lugar, o cineasta Flávio Cândido
estava a registrar com sua câmera as imagens de todos os movimentos
humanos significativos, pois ele sonha em fazer um documentário sobre a
história do Changri-lá. De fato a história do Changri-lá e de seus
tripulantes é digna de ser registrada em um filme.
As tropas desfilavam diante da escadaria que dá acesso à
plataforma onde o povo de Arraial do Cabo encontrava-se silencioso.
Depois que a guarda da Marinha recebeu dos soldados do Exército
a incumbência de guardar pelos próximos três meses o monumento, enfim
o povo de Arraial do Cabo se dirigiu para o subsolo, através de uma
escadaria em mármore perlado lustrado. Lá se encontra a câmara fúnebre,
onde se contempla os mais de 460 jazigos de mármore preto nacional com
tampas de mármore de Carrara, os quais tem gravados, o nome, graduação
ou posto, unidade, data de nascimento e morte dos soldados e aviadores
brasileiros que tombaram na Itália. Vimos à esquerda, na parede, do início
ao fim do grande salão, gravados, os nomes dos navios e dos homens das
Marinhas de Guerra e Mercante, dos militares do Exército mortos nos
torpedeamentos e dos combatentes não identificados.
Depois dos discursos das autoridades, os familiares
representantes dos pescadores, descerraram o pano. Muitos aplausos e emoção,
lágrimas incontidas escorreram pelas faces dos espectadores, em sua
maioria, mulheres, marcadas pelo sofrimento infringido pela guerra. Ali
encontrava-se diante de todos, gravados, os nomes dos seus intrépidos
trabalhadores do mar,
cabistas: José da Costa Marques, Deocleciano Pereira da Costa, Apúlio
Vieira de Aguiar, Ildefonso Alves da Silva, Joaquim Mota Navarra,
Zacarias da Costa Marques e Otávio Vicente Martins. Enfim,
imortalizados.
Agora, esses pescadores cabistas, fazem parte e de modo muito
peculiar, de um episódio histórico que mudou de um lado a história da
humanidade e do outro, a vida de humildes famílias da heróica Arraial
do Cabo. Trata-se de um povo gerador de uma sofrida e destemida classe
de trabalhadores, pois mesmo sabendo do perigo que estavam expostos
quando saíam para o alto mar no período de beligerância causado pela
Segunda Guerra, os pescadores cabistas não se intimidavam. Trabalhar
era preciso, pois suas famílias em casa e em terra firme e segura,
precisavam sobreviver. Vale dizer que uma das áreas mais
perigosas para a navegação aliada, situava-se exatamente na costa e ao
lago de Arraial do Cabo. Nessa zona, onde a costa brasileira muda
abruptamente de direção, os submarinos ficavam a espreita de fazer
novas vítimas. O próprio algoz do Changri-lá, o U-199, havia
torpedeado, sem sucesso, próximo a ilha do Farol, um navio tanque
norte-americano - o SS Eagle - no dia 25 de junho de 1943, ou seja, um mês
antes de destruir o barco de pesca Changri-lá. Diga-se de passagem que
no mês de julho daquele ano, seis submarinos nazistas foram afundados,
um deles, graças a informação fornecida por um anônimo pescador.
Do subsolo resplandecido pelas pulsantes emoções e pela luz dos
refletores advindos dos aparelhos da mídia televisiva que fazia a
cobertura da solenidade, nos conduzimos de volta a entrada do subsolo,
onde se encontra os painéis que representam, em cerâmica, aspectos
representativos da vida e da luta no mar, e tem, no sopé, os nomes dos
navios brasileiros torpedeados. O pano azul, estava a encobrir o nome do
Changri-lá. E logo após alguns dizeres de minha parte, eu e mais duas
descendentes dos mortos do barco, expusemos enfim o nome do Changri-lá
à história, à eternidade.
Alguns
familiares, que assistiam o momento em que eu discursava, bem sabiam que
então eu vivia num dilema, pois ao mesmo tempo que enaltecia o
feito da Marinha do Brasil em se fazer justiça à memória dos
tripulantes daquele barco de pesca, não tinha um mês que o IEAPM me
colocava na “rua da amargura”, sem esperar que eu viesse a concluir
o curso de História pela Veiga, ou seja, me dispensaram do Museu
Oceanográfico para onde doei o acervo de um museu que criei em 1987. Ou
seja, apropriaram-se de um patrimônio cultural, para depois descartarem
sem cerimônia, o patrimônio humano que deu vida e trajetória aquele
acervo. Que gente inépita e infeliz. Será que não sabia os insensíveis
dirigentes daquele Instituto que foi justamente como Diretor de extinto
Museu Histórico Marítimo do Cabo Frio, que pedi a Procuradoria
Especial da Marinha que viesse reabrir o processo relativo ao sumiço do
Changri-lá e de sua intrépida gente pescadora ! Mas para a ironia do
destino, lá encontrava-se quase ao meu lado e certamente bastante
preocupado com o que eu porventura viesse a dizer na ocasião, o atual
Diretor do IEAPM, que simplesmente lavou as suas mãos em relação a
minha dispensa, mas do outro lado, seu assessor jurídico não deixou de
me telefonar para certificar se eu iria comparecer na solenidade. Pois
imaginem se eu, com o estado de espírito acabrunhado como estava, em
represália, viesse a faltar aquela memorável homenagem com toda a
imprensa que ali se fez presente. Bem sabia o Diretor do IEAPM, que
todos iriam perguntar pelo protagonista que se empenhou para que aquele
dia viesse a ser escrito na páginas da historiografia brasileira. Mas
diga-se a bem da verdade que faltou ao Diretor do IEAPM coragem para
enfrentar o desafio(de contrariar o desejo de oficiais reformados e de
civis medíocres que reinam absolutos na esfera de poder do IEAPM).
Penso então que tais homens de nossa Marinha carecem em valorizar cidadãos
que nas suas devidas posições e esferas de competência, conseguem, a
despeito das dificuldades e das limitações, se esforçar para que a
mentalidade marítima seja incutida no seio do povo brasileiro. Em
outras palavras, tudo indica que aqueles homens de nossa própria
Marinha, não sabem, ou ignoram que a tarefa de influir sobre a mente do
povo é hercúlea, pois para alcançar aquele objetivo, é preciso que o
povo reconheça o mar como fundamental para o bem-estar da nação.
Enfim, tenho plena certeza que estes homens não estão interessados em
fortalecer o conceito de que a mentalidade marítima é uma das parcelas
do Poder Marítimo e que eu, portanto, servia a este mister, já que meu
trabalho sempre atingia uma parcela do povo brasileiro, difundindo a
mentalidade marítima e propagando-a com os parcos recursos que eu tinha
às mãos. Livros publiquei, um museu eu fundei, e o caso do Changri-lá
afinal, solucionado, é uma
grande prova do que acima venho afirmar. Agora o que fez a própria
Marinha do Brasil, que recebeu das mãos do povo de Arrail do Cabo, um
abaixo assinado contendo 700 assinaturas, que pedia aquele Diretor que
eu permancesse pelos menos até o final do ano de 2004. Mas o povo ficou
e ficará sem sua resposta, uma vez que o ranço autoritário não foi
expurgado da Marinha, pois esqueceu ela, que deixou de governar o
Brasil, sob uma ditadura que mergulhou o País nas muitas das atuais
mazelas sociais que então amargamos. E o IEAPM como uma instituição
científica, na verdade, encontra-se na contramão da história, uma vez
que através de seu Museu Oceanográfico tinha tudo para
enriquecer sobremaneira o Patrimônio Histórico e Cultural da região
onde o referido Instituto encontra-se inserido, seja pelo aumento do
acervo que lhe doei, seja mantendo-o sob a tutela de um historiador
reconhecido localmente.
E se o IEAPM,
infelizmente não sabe de fato que o mar é uma “escola de força e de
previdência”, também aproveito o momento para denunciar que em
falta, também se encontra o governo municipal de Arraial do Cabo, que
ainda não construiu em local nobre da cidade, um memorial em homenagem
aos mortos do Changri-lá e ainda não mandou imprimir aos milhares para
ser distribuído entre o povo, o acórdão do Tribunal Marítimo que na
data de 31 de julho de 2001, transformaram aqueles anônimos pescadores
em heróis, que então mortos pelos submarinistas de Hitler, atingiram
profundamente a vida de sofridas famílias de uma localidade cujo
sustento basicamente vinha do mar. Fora uma época difícil para aquela
gente, a qual é merecedora de todo o nosso respeito. Dona Geraldina,
por exemplo, enlouqueceu, pois nem seu marido e o filho, Zacharias,
voltaram para o aconchego humilde do lar. O pescador Zacharias, não
passava de um garoto, o qual, exatamente naquele fatídico mês de julho de 1943
completaria mais um ano de vida. Com ele morreu toda uma geração. Não
é por menos que um provérbio judeu proclama: “Quem salva uma vida,
salva o mundo inteiro”. Elísio Gomes Filho, diretor
de pesquisa histórica da A TEIA,
é graduando em História pela UVA, pós-graduado em História do Brasil
e pós-graduando em História Contemporânea pela UCAM.
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